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25 de Fevereiro, 1 ano de Maratonista… A crónica da estreia

Boas pessoal, como é que é, tá tudo bem?

Hoje, 25 de Fevereiro de 2019, quando o artigo foi começado a escrever, faz um ano em que completei a minha primeira maratona. Maratona de Sevilha. À hora que publico este texto, já estava com os "alicates" a descansar, depois da gloriosa correria pelas "calles" sevilhanas.

Mas, vou voltar atrás no tempo, para vos contar como toda esta saga começou a ser magicada. Foi simples: Após um treino do Correr Lisboa e depois de ter ouvido tantas e boas histórias dos meus companheiros "Vicentes" sobre as suas aventuras na distância, decido que estava na hora de me tornar um Maratonista. Primeiro passo: Tratar da inscrição. Foi praticamente na hora.... Queria tanto correr a Maratona, que foi chegar a casa e em 5 minutos estava com inscrição paga. Já não havia volta a dar. O desafio ia começar... Weeeeeeeeeeeeeeeeeee.....

Segundo passo: Encontrar um plano de treino. Nem pensei em arranjar um "mister", um "mental coach"... Eu queria era correr a Maratona. Ponto. E assim, lá "saquei" um plano de 4 treinos por semana, que fui seguindo à risca. Qual cá pensar em reforço muscular, qual pensar em massagens. NADA. Era correr.

Nessa preparação, que decorreu no Inverno (comecei os treinos em Outubro) tive dias de sol, algum calor, muita chuva e frio.... Confesso que cheguei a pular alguns treinos. Ui, correr de manhã com frio e chuva... ui... Mas também saí muitas noites a chover. Chegava a casa todo molhado. Treinei muito sozinho. Eu era o meu "mister", o meu "mental coach"... Acreditem, e para quem corre, percebe aquilo que eu vou dizer. É muito agradável treinar com companhia. Mas os treinos a solo, deixam-nos mais fortes. Sozinhos com os nossos pensamentos, vamos imaginando como é que vai correr a prova. Vamos ali, naquele passo de corrida, naquela cadência, sós, a caminho da glória.

E eis que chega a semana antes da maratona. O mais duro estava feito, praticamente quatro meses de muitos quilómetros, suor, chuva, frio, risos, algum choro, algumas dores. Enfim, um menu de coisas boas e menos boas. Decidi sair uns dias de Lisboa e fazer um pequeno estágio nas minhas "raízes": a minha cidade de Moura, em plena planície alentejana. As "comidinhas" e os mimos da tia Matilde, senhora minha mãe, fazem maravilhas. E respira-se ar puro, ouvem-se os pássaros. Foram dias fantásticos.

O Vicente por terras Alentejanas

E pronto. O Caramba estava pronto para embarcar na sua, até então, maior aventura: Correr os 42, 195 Km da Maratona de Sevilha 2018. Embarquei no avião sexta feira. Cheguei à capital da Andaluzia, fui ao Hotel. Visitei a feira da Maratona nesse mesmo dia, onde recolhi o meu dorsal. Jantei massa e descanso. Sábado, pequena corrida de activação muscular e aproveitar a cidade. Já aquele nervoso miudinho começava a aparecer. Mas eu queria era correr.Outro jantar de massa, com os meus cunhados e uns amigos de Sevilha e descansar. Nessa noite, quem é que dizia de eu dormia....

Chegou o DIA. Aquele para que todos os que ambicionam ser Maratonistas querem que chegue. Era naquele dia que o desfecho de quatro árduos meses ia culminar na Glória do Estádio da Cartuja ou não. Na noite anterior deixei o kit todo montado. Acordei com fome, tomei um pequeno almoço ligeiro no hotel e sai, todo "armadilhado" de géis, bananas e afins, rumo ao autocarro que ia levar os "bravos guerreiros" até ao tiro de partida. Organização espectacular no estádio, para deixar os nossos pertences no bengaleiro. Fiz xixi para aí umas 3 vezes antes da partida... Sabem, eu estava nervoso era para "arrancar", ahahah. A caminho da partida, ia à procura dos meus amigos Vicentes do Correr Lisboa. Encontrei o Paulo Nunes e a Marta Conceição ( que foi ajudar o Paulo nos últimos quilómetros). E aí, tenho a primeira surpresa e as primeiras lágrimas aparecem: Vindos do nada, a Isabel Moreira (a minha Bélinha) e o meu Companheirão do Running, Henrique Ferreira desatam a correr para me abraçar. Eu nem queria acreditar....Fiquei estático. Mas depois gritei, chorei (também já estou a chorar agora...) fizemos uma pequena "fiesta" e demos Aquele Abraço. Era a confiança que eu precisava, ter ali os meus amigos. Entretanto, os meus cunhados, iriam estar no estádio mais tarde...

Friends Forever
Antes da partida
Antes da partida

Aquecimento e mais um "xixi". Ultimo conselho do Paulo Nunes: "Vai e diverte-te, acima de tudo". Ainda hoje guardo essas palavras. Entretanto, aparecem os Vicentes José Miguel Pais e o Mário Sobral e tiramos a ultima foto, antes de entrar para o bloco de partida. A partir daí, tenho uma "branca", até ao tiro de partida....

PUM.... O Tiro. Acordo daquela inércia em que estive durante uns instantes e sinto que estou a correr. Caramba, a Maratona começou, é verdade. Via muita gente e não via ninguém. Estava a correr a Maratona... Entretanto, o Paulo arranca e fico ali uns segundos no meio de uma avenida gigante cheia de gente, até que vejo outro Vicente, o Pedro Ventura Costa. Juntei-me a ele, íamos para um ritmo comum e assim fomos. Passados não sei quantos metros, aparece alguém atrás de nós que diz em bom Português e com sotaque do norte: "Vamos por Lisboa a correr". Olhámos e era um "tuga". De seu nome Rui Fraga, juntou-se a nós com simpatia e boa disposição. A receita que precisávamos para esta "batalha". Sempre com entreajuda nos abastecimentos, lá íamos passando os quilómetros. Passámos a meia maratona e lembro-me, aí por volta do quilómetro 30, de dizer o seguinte: meus amigos nunca corri mais que 31 quilómetros na minha vida de corredor de rua. Ao que o Rui me diz: Estás bem, não estás? Então, desfruta da prova e do apoio do público. E corre... E assim foi, bem hidratado, géis na dose certa, aí fomos, km após km seguindo o nosso rumo. Até que o Pedro, ali por volta do km 33, quebra e diz: Sigam, eu fico bem. Lembro-me de olhar para trás e pensar: Não, o Pedro não pode ficar ali, tem que seguir junto de nós. Aqui eu senti que a Maratona não é uma corrida em grupo, é uma corrida individual. O Pedro também cortou a meta. Lá seguimos, eu e o Rui. E encontramos o Paulo Nunes. Vinha em esforço, ali por volta do quilómetro 34, acompanhado da sua grande amiga Marta. Digo-lhe: Bóra Paulo, siga, anda. Ao que ele me faz sinal que não dava mais e me grita: Cerveja no final. Rimo-nos e seguimos, eu e o Rui, rumo à Praça de Espanha. Toda a gente que correu esta Maratona me disse que ao chegar à Praça de Espanha, o banho de multidão era tal que até parece que te levantavam do chão. Segunda surpresa: não achei assim tanta gente. Foi especial passar ali a correr, mas só isso.

Eu e o Rui (é o de calção preto e camisola vermelha)

O melhor estava para vir. Terceira surpresa. A seguir à Praça de Espanha, vinha a zona do "Casco Antiguo" e a rua da Catedral. E do meio da neblina que nos acompanhou quase toda a prova, aparece um sol resplandecente e quente. Um sol sevilhano que nos veio receber... Entramos na Rua da Catedral e só me lembro de pensar: estou numa etapa da Volta à França em bicicleta ou na subida à Torre. Aqui sim, o apoio era magnânimo. Foi uma descarga de adrenalina brutal. Lembro-me de começar a chorar (outra vez) e digo para o Rui: Vou arrancar até à meta, vamos? Ao que ele me responde: Vai, segue, eu estou bem, estaremos juntos no estádio... Foi um até já. A energia daquelas ruas cheias de gente foi um "boost" para um grande final de prova. Ali, eu tive a certeza que ia chegar ao fim bem e feliz. Naquele momento, na cabeça não existiram dores. Nas pernas sim, mas não queria saber. Liguei o piloto automático e segui. Lembro-me de ouvir um grito de alguém português: FORÇA VICENTE... Quis ver quem era, mas não consegui. Chorei, de novo. Mas não era hora de parar. Aquele grito foi outra descarga de adrenalina. Corri, corri, corri.... Quilómetro, 37, 38... Sevilhanos, Tugas, gente a bater palmas e a gritar a tão famosa frase: "ANIMO CAMPEON"....

Entretanto, estou a chegar ao Estádio. Olhei para o céu e disse-me entre dentes um palavrão e saquei da minha bandeira. Mais gente a aplaudir. Lembro-me de ver uma enorme bandeira portuguesa. Assim que viram a minha "bandeirinha" gritaram Força Portugal.

A entrada no túnel do estádio. Lembro-me do Paulo Nunes, me dizer: No túnel não vais aguentar e vais chorar muito.... E assim foi. As lágrimas eram muitas. Soluçava de emoção. Tanto, que descontrolei a respiração.... Mas já não queria saber. Estava ali e tinha conseguido chegar ali. A emoção era tudo....

O Estádio. Lembro-me de entrar e sentir uma espécie de tremor. Não sei explicar. Corri pista fora, sem olhar para ninguém. Aí, as lágrimas desapareceram por uns instantes e todo eu era sorrisos. Segui, braços no ar, bandeira portuguesa ao alto. Até que ouço um grito: Pedro, Pedro. E no meio de centenas de pessoas, estava a minha cunhada Rose, aos pulos e saltos, mais o meu cunhado Sérgio e os nossos amigos Carlos e Yolanda. Foi uma festa... mandei beijos, muitos beijos... E depois, a reta da meta. O pórtico de chegada estavam ali. 195 metros à minha frente... Só me lembro de correr para a frente, com a bandeira.

Carambinha Maratonista

Tinha chegado ao fim. Depois de muitos meses, tinha chegado aquele momento. Passei a meta, e as lágrimas voltaram. Muitas, rosto abaixo. Uma felicidade que parece que o meu corpo ia explodir. Lembro-me de me ajoelhar, olhar para o céu e agradecer aos meus anjos da guarda, o meu pai Francisco e a minha amada Beth. Que estavam e estão na minha bandeira. Que estiveram e estão em cada quilómetro... Por momentos, voltei àquela bolha do início da prova....

Era hora de encontrar gente conhecida. Fiz questão de que as meninas da organização me pusessem a medalha ao peito. Como fazem aos campeões. Era assim que eu me sentia naquele momento: UM CAMPEÃO. Vejo o Rui e abraço-me a ele, os dois a chorar. Dissemos poucas palavras naquele momento. Mas foi um abraço sentido, de OBRIGADO POR TUDO. UM COMPANHEIRÃO o Rui. Entretanto, foram chegando outros Vicentes: o Pedro, o Miguel Barradas, o João Ferreira, o Paulo e a Marta, o Mário Sobral... Tiramos uma grande "chapa" e fomos hidratar. Eu, o Paulo e a Marta bebemos para aí umas sete cervejas com limão. Tão bem que souberam. Até hoje falamos nisso....

Friso de Vicentes
A Hidratação

Finalmente, à saída do túnel vejo a minha Bélinha. Mais abraços, risos, uma ou outra lagrimita e muita festa. E finalmente conheço, ao vivo e a cores, aquele que é uma máquina das maratonas e um grande corredor e bom amigo, o Fábio Lima. Já vínhamos trocando mensagens nas redes, mas só neste dia é que nos conhecemos. Lembro-me que estavas a beber uma "mini"....

Foi o melhor retrato que consegui . Acabo estas linhas quase como acabei a Maratona: com muita emoção. Porque são as MARATONAS que (também) me fazem MUITO FELIZ.

Orgulho
A medalha

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